quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Uma conversa típica

E - Porra!, nunca acreditas em mim!
A - Não estou a dizer que não acredito em ti.
E - Só não aceitas!
A - Não estou a dizer que não aceito.
E - As coisas são o que são! Já está na altura de nos deixarmos de inocências.
A - Não discordo, só que...
E - Só que o quê?
A - Percebe que eu não sei bem...não estou habituada!
E - A quê? À sinceridade?
A - Talvez...
E - Lamento que te sintas constrangida. Confesso que sempre achei que já tinhas compreendido.
A - Não é o que disseste! É a forma como o disseste.
E -Só disse que adorava aparecer contigo em público!
A - Não foi só isso que disseste.
E - Ouve, é verdade. Não és a mais inteligente das mulheres que conheci mas adorava o teu corpo..
A - E não achas que isso não é razão para ficar chateada?
E - O teu corpo também é uma coisa tua.
A - Pelos vistos, não o suficiente.
E - Não fui eu que te deixei.
A - Não me deixaste outra oportunidade.
E - Nunca acreditaste que eu te amava.
A - Talvez porque tudo o que me deste a entender é que amavas o meu corpo, não eu.
E - Não. Quanto muito o que te disse é que em ti, preferia o teu corpo; é diferente!
A - Vai dar ao mesmo.
E - Não, não vai. O que eu disse foi que o teu corpo foi o que mais me impeliu para ti. E amar em parte é aprender a gostar.
A - Ou gostas ou não. Não adianta simular.
E - E tu, em algum momento chegaste a amar-me?
A - Claro que sim!!
E - Então o que te chateou mais? Amares um bruto, ou aquilo em que te tornaste por amares um?
A - Não é nada disso que eu estou a dizer.
E - Então não sei o que estás a dizer. Ouve, fiquei contigo por algo que era teu.
A - Não é isso que está em causa!
E - Bom, então nesta altura já não faço a mínima ideia do que está em causa.
A - O que está em causa e achares-me uma burra e mesmo assim estares comigo. Dizes-me que sou uma burra, mas que como sou uma burra bonita tu ficas comigo.
E - Onde é que nas minhas palavras estou a dizer que és uma burra?
A - Naquilo que me estás a chamar.
E - Que é?
A - Fútil. E se isso para ti chega, então não és o homem que eu pensava que eras.
E - Só depois de te conhecer posso amar-te pelo que és. Até lá só te posso amar pelo que pareces ser.
A - Mas não saíste dessa fase.
E - Não me deste tempo.
A - Não percebes como me sinto fragilizada ao ouvir-te dizer que o queres de mim é o meu corpo?
E - Não é só o corpo! Quantas vezes tenho de repetir!!? Continuo a gostar dos momentos que passava contigo. Sempre dei importância ao que tu fazias, sempre te observei, sempre te ouvi. Sempre dei importância ao que tu me dizias. Nunca me furtei a conversas.
A - Neste momento já acho que era só para me entreter.
E - Não te entendo: se te digo que não és a mulher mais brilhante que conheço, dizes-me que te estou a chamar de burra. Se eu digo que me apaixonei pelo teu corpo, criticas-me por me satisfazer com pouco. Se vamos continuar a jogar às acusações, acho melhor esta noite ficar por aqui.
A - Queres que eu me vá embora?
E - Não estou a meter-te na rua.
A - Estás só a insinuar que é melhor.
E - Estou a dizer o que sinto.
A - Se queres que te diga, até és capaz de ter razão. Não vale mesmo a pena continuar com esta discussão. Já acabou mesmo tudo entre nós, de vez, não acabou?
E - Queres que te diga o que sinto, ou queres que concorde contigo?
A - Às vezes acho que só queres é dar-me uma razão para te começar a odiar.
E - Às vezes sinto que preferia que isso acontecesse.
A - Eu preferia que nada disto tivesse acontecido.
E - Nem as partes boas?
A - Não; essas sim. As outras é que não.
E - Preferias o quê? Uma vida convencional?
A - Porquê? Parece-te assim tão mal?
E - As coisas tomaram o rumo que tomaram.
A - Porque tu nunca te entregaste, nunca foste capaz de te abrir comigo, de estares à vontade.
E - É portanto, uma incapacidade minha...
A - E não é?
E - Se tu o dizes.
A - Lá estás tu outra vez a ser cínico.
E - Lembras-te de quantos telefonemas teus recebi, a informares-me que estava tudo acabado entre nós, para no dia seguinte voltares a pedir desculpa?
A - Porque tu nunca percebeste que isso só acontecia porque eu te amava. Viver contigo é como viver com um furacão. Guardas as emoções até rebentar. Num momento estava tudo bem, no outro logo a seguir ficavas todo frio e distante.
E - Nunca te queixaste disso.
A - Não tinha de o fazer. É uma coisa suficientemente importante para teres de descobrir por ti mesmo.
E - Querias que eu subentendesse algo que nunca deste a entender.
A - É assim que eu entendo o amor: quando se gosta mesmo, tem-se sempre atenção. E tendo-se atenção, uma pessoa apercebe-se do que a outra quer. Se não fores capaz, então é porque não és a pessoa certa para estar comigo.
E - É. Se calhar não sou.
A - E nem dúvidas tens, sequer?
E - Tu tiveste-as?
A - Sempre gostei de ti. Continuo a gostar.
E - Já sei. Eu é que não correspondi o suficiente.
A - E não.
E - Sabes que podes cortar com o passado, mas que o passado não corta contigo.
A - Eu sei. Mas já me habituei à ideia de seres passado. Tu nunca conseguiste acreditar que eu te amava mesmo.
E - Fizeste muito pouco para mo dar a entender.
A - Bolas! Saí de casa do meu namorado, com quem vivia à 6 anos para ir viver contigo. Não te parece suficientemente expansivo?
E - Agora a esta distância, claro que sim, mas na altura...sempre foste tão frágil.
A - E tu nunca me soubeste proteger.
E - Ao contrário do que possas pensar, sempre tentei proteger-te. Apaixonei-me pela tua fragilidade.
A - Então porque é que nunca o disseste? Porque raio te calavas, não dizias o que querias!? Ainda hoje acho que tens imenso para dar, mas que estás à espera que aconteça sei lá eu o quê.
E - Se calhar ainda tenho receio de assumir alguns desafios.
A - Não entendo é porque numas coisas assumes logo os desafios e noutras desatas a fugir.
E - Fujo daquilo que conheço mal.
A - Tens medo de ti próprio é o que é. E não consegues perceber que é nisso do qual foges que está sentido. E tu foste capaz de fazer coisas tão bem feitas, tantas vezes; tinhas momentos de tal brilhantismo...e eu sempre me senti frustrada por comigo não seres tão dedicado...Cheguei a sentir inveja dos teus amigos; com eles tinhas uma felicidade que nunca consegui que tivesses comigo.
E - Também te pedi pouco.
A - Isso é o que tu pensas. Viver contigo é pedir muito.
E - Só que eu não peço.
A - És uma besta emocional, é o que és.
E - E tu és susceptível.
A - E tu ignoras os sentimentos dos outros, até daqueles que vivem contigo.
E - Sabes lá. Viveste comigo um ano, não a vida toda.
A - Tens medo de gostar das pessoas.
E - Segundo os teus parâmetros.
A - E orgulhaste disso?
E - Tu é que puxaste a conversa. Estou só a responder-te.
A - Estás a desculpar-te de algo?
E - Não vejo que erro possa agora ter cometido para me estar a desculpar.
A - Estás a dizer que eu fui um erro?
E - Estou a dizer precisamente o contrário.
A - Não te arrependes de não ter feito mais?
E - Talvez.
A - O importante é o antes, não o depois.
E - Tu lá sabes...
A - Lá estás tu a oferecer-me vitórias por condescendência.
E - Mais vale estas que nenhumas.
A - És um orgulhoso. E por causa desse ter orgulho é que nunca foste capaz de perceber que eu queria mas estava indecisa. Sabes o que isso significa?
E - Que não querias nem deixavas de querer.
A - Estás a ver!
E - O quê?
A - A forma como tu metes as coisas. Não quero ficar chateada contigo...
E - Não tens de ficar. Não deu. É tudo.
A - Mas eu queria que tivesse dado...
E - Mas não deu.
A - Nunca é estúpido deixares-te levar pelas emoções. É por causa de pensares que o é, é que nunca te permites fazê-lo.
E - Culpas-me por algo que revela que acima de somos de tudo incompatíveis.
A - Aceitarias-me de volta?
E - Não me vou dar a esse prazer.
A - Porquê?
E - Porque sei que não ficas.
A - Se me amasses, não dizias isso.
E - Prefiro recordar-te.
A - Já sou assim tão parte do teu passado?
E - Sabes que eu sempre vivi tudo muito rápido.
A - E para onde pensas agora dirigir essa tua rapidez?
E - Logo se vê. Sabes que eu nunca fui mesmo capaz de me comprometer como uma só coisa.
A - Foste feliz comigo?
E - Que importância pode ter isso agora?
A - Toda.

Numa manhã de nevoeiro

A – Bem!, está cá um nevoeiro!
B - Daqui a pouco aparece o D. Sebastião.
C – Nesse caso é melhor não virarmos as costas.
B – Porque é que dizes isso?
C – Porque o gajo preferiu ir levar de árabes para o deserto do que ficar a comer cortesãs em Lisboa! Com tais prioridades, o que é que te parece que ele era?
B – Visto por esse prisma...
C – Ah pois é meu amigo. Não tarda nada e aparece aí a enrabar-nos aos 3.
B – Nesse caso eu fico para último. Pode ser que lhe passe a vontade depois de vos aviar aos 2.
C – Hum, com 500 anos de espera, acho que não te safas. E tu até és o mais rechonchudinho, és logo o primeiro.
A – Ficas todo assado.
C – Até tens direito a uma maçã na boca, que é para o protocolo.
A – Que no deserto não há porcos.
B – Mas afinal porque é que ele foi para o deserto?
C – Porque sofria de taquicardia.
B- Mas o ar do deserto é péssimo para as taquicardias!
A – Se calhar foi por isso que ficou por lá!
C – Na volta era também masoquista.
B - Também?
C - Para além de paneleiro.
A – Foi um desperdício, é o que foi.
C – Pois claro; onde é que já se viu um homem com tão pouca saúde ir gastar a pouca que lhe resta no deserto?
B – Mas ele era doente?
C – Já te disse! Sofria de taquicardia!
B – Oh.
A – A sério! Foi quase tão mau para a saúde dele como foi para nós a restauração da independência.
B – Para nós?
A – Sim. Já olhaste bem para a Espanha? Não te parece que estávamos bem melhor como espanhóis?
B – Mas a independência é um feito histórico!
C – Também o Nazismo.
B – Não podes comparar.
C – Não comparo. Só acho que quem fez a restauração tinha os amigos errados.
A – Não foi um gajo, foi uma gaja.
C – Não me espanta! O último também só fez borrada!
B – Qual último?
C – O paneleiro!
B – O D. Sebastião?
C – Sim! Foi ele que perdeu a independência!
A – Pois. O paneleiro.
B – Mas porque é que vocês dizem que ele era paneleiro?
C – Não se casou, pois não?
B – Também era novo!
C – Mais uma razão para ficar cá a comer gajas ao invés de mouros montados.
A – Aliás, foi o facto deles estarem montados que o atraiu para lá!
C – E tu ainda duvidas que ele era paneleiro?
B – Parece-me que vocês estão a exagerar.
A – Quer dizer; tivémos um rei.
C – Sim, mas ela é que usava as calças, que ele andava de saias.
A- Mas eu acho que esse não era paneleiro.
C – Andava de saias?
A – Andavam todos de saias.
B – Porquê? Não havia alfaiates?
C – Claro que havia! Caso contrário quem é que faria as saias?
A – Ó miúdo; era uma questão de moda!
B – Não havia calças?
A – Sim. Mas eram tipo collants.
C – Também era uma coisa assim meio bicha.
B – Mas andavam todos de saias?
A – Não. Alguns andavam de collants.
B – Mas devia haver calças sem serem collants, não?
A – Sim. A plebe andava com calças. Mas era sarrapilheira. Era péssimo. Dava cabo dos tomates.
C – Se calhar é por causa disso que os tomates são enrugados!
A – Isso não faz sentido nenhum. A sarrapilheira não faz rugas na pele!
C – Bom, mas nesse caso deviam ser bem rijos, para resistir à fricção!
B – Isso não devia dar jeito nenhum na cama; vocês já imaginam os colhões duros a bater em cheio?
A – Nessa altura as gajas também eram rijas!
C – Era tipo castanholas.
A – Os filmes porno passavam a vender as bandas sonoras.
B – Sexo não é uma orquestra.
C – Bem, mas eu quando me venho até canto!
B – Daqui a pouco estão a transformar a música em pornografia.
C – Já faltou mais! Já viste os telediscos? Há filmes porno com gajas mais vestidas.
B – Quer dizer: a música está lá só para acompanhar as gajas a despirem-se!
A – E nem sequer é preciso um poste!
C – Seja como for, isso é que seria uma diferença.
B – Olha, vem lá a nossa boleia.
A – Já não era sem tempo. Estou gelado. Daqui a pouco quem está a bater castanholas sou eu, mas com os dentes.
C – Pena que não seja como dantes; se fosse, a esta hora, estavas a ter um orgasmo.

"Little Lion Man", by Mumford and Sons



Weep for yourself, my man,
you'll never be what is in your heart
weep little lion man,
you're not as brave as you were at the start
rate yourself and rape yourself,
take all the courage you have left
wasted on fixing all the problems that you made in your own head

but it was not your fault but mine
and it was your heart on the line
i really fucked it up this time
didn't I, my dear?

tremble for yourself, my man,
you know that you have seen this all before
tremble little lion man,
you'll never settle any of your score
your grace is wasted in your face,
your boldness stands alone among the wreck
learn from your mother or else spend your days biting your own neck

but it was not your fault but mine
and it was your heart on the line
i really fucked it up this time
didn't I, my dear?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Prefiro a Inquietude

Detesto sentir-me entediado. Preciso de estimulo constante na minha vida.
Preciso de sentir, de mudar, de corer, de arriscar; preciso de dar, de receber, de experimentar; preciso de partilha, de cumplicidade, de vontade e quando isso não existe, perco o interesse.

Por norma, sou mau jogador. Digo o que sinto e expresso o que quero, perdendo o efeito surpresa ou a ansiedade da incerteza, mas na verdade acho isso uma fraqueza, que as pessoas tendem a camuflar, interpretando a sua insegurança com razões bem menos depreciativas.

Mas eu sou assim, um mau jogador, porque sei o que quero e não tenho medo de o assumir, uma vez que estou cansado de vidinhas estáveis, sob efeito do auto controlo, da comodidade e da protecção. Vidas assim, não desafiam ordens e por isso não assustam nem inquietam. Mas para mim, que preciso de me sentir vivo e preenchido, isso não passa de uma forma de prolongar o tédio que tanto me apoquenta.

O que promove a vida é o contacto, a partilha e a aproximação. Quando isso não existe, é como se a vida nos passasse ao lado enquanto fazemos grandiosos planos sobre como vivê-la. E eu não estou para isso. Prefiro a inquietude.

A minha última criação - Robinson Crusoe - Texto 3 do Angst

Robinson Crusoe é mais que um náufrago. É um aventureiro, que ao longo dos episódios que constituem a sua história, repete continuamente o mesmo pecado: o de não se satisfazer com a sua posição modesta e burguesa.
Ao invés disso, ele parte à conquista de mais, quase morrendo afogado, sendo feito escravo, até conseguir finalmente o sucesso, na forma de uma quinta brasileira.

No entanto, este sucesso revela-se insuficiente e a sua inquietude misturada com o desejo de mais, fá-lo partir de novo à procura de mais, sacrificando o que conseguira, acabando por fim na ilha, naufragado e só.

Uma vez lá, entregue ás suas considerações, entende o seu destino com um castigo pela sua rebelião contra a ordem. Influenciado pelo puritanismo burguês, ele entrega-se à auto análise, reproduzindo aos poucos a história da humanidade.

Primeiro o domínio do homem sobre a natureza, da agricultura à pecuária, inaugurando a instrumentalização em prol da auto conservação, conforme fez a sociedade burguesa da revolução industrial. Passa a administrar o seu tempo, entregando-se ao trabalho, de acordo com um processo: observação da sua vida, desenvolvimento de um método e criação de uma estabilidade.

O resultado final, reproduz o estado actual da civilização, quase uma inevitabilidade perante a natureza do modelo burguês: a solidão social, o autocontrolo, a organização metódica da sua vida, a independência e a inventividade técnica, destinada a reproduzir um estado de coisas, não satisfatório, mas estável, longe das atribulações de quem provoca a ordem.

A minha última criação - Universo - Texto 2 do Angst

Desde tempos imemoriais que o sol e a lua falam aos Homens. Os nossos antepassados olharam para o espaço e procuraram nele explicações para a vida, a morte e a imortalidade.

O Universo é para nós, tudo o que existe. O espaço tempo, a matéria, a energia, as interacções, as leis que as regem e o modo como tudo é criado, destruído e alterado.

À luz do seu conhecimento, criaram-se mitologias para a criação. O universo nascera de um ovo, do acto criador de um Deus, da união entre um homem e uma mulher, ou mais simplesmente, emanado de princípios fundamentais e matérias caóticas.
Hoje, quando olhamos, sabemos que o sol é uma estrela, a nossa, orbitado por 8 planetas e outros milhares de corpos, que está a 150.000.000kms da terra, levando a sua luz, 8 minutos a atingir o nosso mundo.

Com o tempo aprendemos também que o universo tem entre 13 e 20 biliões de anos. Está cheio de galáxias, cada uma das quais com milhões e milhões de estrelas, rodeados de triliões de corpos, planetas e satélites, formados a partir da condensação da matéria em nuvens de gás e poeira, que se mantém no seu lugar, por acção da gravidade, das Forças Nucleares Forte e Fraca e do electromagnetismo, forças essas que parecem reger todas as interacções fundamentais das partículas.

Aprendemos que os átomos, que um dia pensámos serem a base do universo, são na verdade compostos por protões, electrões e neutrões, que por seu lado, são compostos por fermiões; partículas elementares que se dividem em quarks e leptões; que por ser lado se relacionam com bosões, outra das partículas elementares, cuja interacção torna possível a matéria. Mas muito deste conhecimento é teórico, produto da matemática, mais do que da observação factual. É conhecimento inferido, como é o caso da matéria negra, que compõe 23% do universo, mas que não é visível, apenas inferida, como fundamental para explicar o comportamento dos corpos.

Na verdade o universo é muito maior do que aquilo que conseguimos observar.
Inventámos para tal um termo: o universo visível.
Mas mesmo neste caso, o ser visível, não o torna conhecível. Grande parte deste, nunca irá interagir connosco. Mesmo que existisse eternamente, a possibilidade da sua expansão ser feita a uma velocidade superior à da luz, tornará sempre partes do universo fora do nosso alcance.

O nosso desconhecimento parece não ter fim e pior que isso, parece inultrapassável na sua totalidade. Que certeza pudemos ter que o que existe, existiu e existirá, é a única coisa que há, houve ou haverá?
Que nos garante que não haverão outros universos, desligados do nosso, geridos por outras constantes físicas e como tal, impossíveis de detectar?
Segundo a quântica, a probabilidade do resultado de uma experiência feita a partir de um estado inicial perfeitamente definido, é determinada pela soma de todos os caminhos possíveis, para o qual o resultado evolui até ao estado final. Por outras palavras, só um resultado é possível. Assim sendo, até o que não existe, pode influenciar o que existe.

Perante isto, mesmo o que sabemos, não diminui a impotência.
A estrela mais próxima da nossa, Próxima Centauri, está a 4,2 anos luz da terra.
A mais brilhante no ceú nocturno, Sírio, a 8,57 anos luz.
A luz viaja a 300.000kms/seg, ou 300.000.000 km/h.
Um avião comercial atinge entre 700 e 900km/h.
Um jacto hipersónico bate Mach 5, mais de 5000km/h.
A Apolo 11, que pousou na lua, atingiu 40.000km/h.
Mesmo a esta velocidade demoraria cerca de 7.500 anos atingir a estrela mais próxima.
Nem a dilatação do tempo, conforme descrita na Teoria da Relatividade, nos deixa menos isolados.

Pelo contrário, parece revelar a nossa insignificância cósmica. Seja o tempo encarado como uma dimensão absoluta à imagem de Newton, ou de uma estrutura intelectual usada para sequenciar eventos, a verdade é que o tempo é o que separa causa de efeito.

A causa, é a nossa realidade. A possibilidade de vida noutros mundos, não diminui a certeza que devido à nossa actual incapacidade, o efeito desta realidade, é o de estarmos irremediavelmente sós no universo.


Próxima Centauri - 4,2 anos luz
Luz = 300.000.000 km/h
Num dia = 7.200.000.000 km
Num ano = 2.628.000.000.000 km
4 Anos = 10.512.000.000.000 km

Apolo 11 = 40.000km/h
Num dia = 960.000 km
Num ano = 350.400.000 km
4 Anos = 1.401.600.000 km

10.512.000.000.000 / 1.401.600.000 = 7.500 anos

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A minha última criação - Dom Quixote - Texto 1 do Angst

Dom Quixote era um aristocrata espanhol, que acreditando nos romances de cavalaria que lê compulsivamente, decide tornar-se cavaleiro andante, convencido da veracidade histórica dos mesmos. Para tal, arma-se cavaleiro, arranje um fiel escudeiro, elege uma feia camponesa a bela donzela e parte pelo mundo, vivendo o seu próprio romance de cavalaria.

O livro é uma parodia aos romances de cavalaria, mas também uma Sátira dos preceitos literários que regem aquelas histórias. A luta por valores como o amor, a paz e a justiça, numa fantasia desmentida pela própria realidade. Se por um lado representa a liberdade máxima, por outro encerra-a dentro de estreitos limites.

O que se torna dramático e pungente na personagem de Dom Quixote, é a expressão amarga da impossibilidade de dar vida a um ideal. Toda a história é um conflito entre estas duas forças, a tentativa de uma personagem de viver um período áureo de um vida que já não existe, preenchendo espaços vazios com palavras que simbolizam algo do qual se sente falta, refém da verdade que a necessidade não é garantia de existência.

É o fim de um mundo, de um tempo, eternizado na acção de alguém que se recusa a deixá-lo morrer, tornando-se motivo de chacota. É a tristeza da desilusão, o fim de um sonho sem progresso, que termina na decepção e na dor. Mas mesmo antecipando o fracasso ou pelo menos confrontado com ele, Dom Quixote persegue na sua própria tenacidade, numa espécie de louvor de uma moral de fracasso, repleto de objectivos vagos e irrealizáveis.

A seu jeito, Dom Quixote representa o fim da nobreza de coração e da plenitude da vontade, valores que dominaram toda a idade média. Ao marcar o fim de um tempo, ele marca inevitavelmente, o início de uma outra época, uma modernidade apresentada através da falência da antiguidade que veio substituir.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Sabes o que é triste?

É que tu és uma daquelas pessoas que parecem demasiado tímidas, para se sentirem à vontade onde quer que seja.

Pessoas assim tendem a guardar para si o que de mais precioso têm, com medo do que a isso possa acontecer, uma vez exposto.

O que me deixa triste é saber que nunca irei viver isso contigo, porque entre nós dificilmente existirá a abertura necessária a uma relação que torne isso possível.

No rescaldo dos 31 anos

Tudo o que posso saber sobre a vida é uma expectativa, uma potencialidade, cheia de desejo e medo, que só adquire realidade no que acontece mais tarde.
A vontade de substituir a solidão pela coexistência é incumprível.
Quando desaparece a solidão, a coexistência vai com ela, pois o que a solidão busca na coexistência é a definição do futuro, despojando de mistério a da esperança de ser pleno e completo.
Quando se sofre, prometemos a nós mesmos, que não vamos voltar a passar pelo mesmo. Que não se vai amar mais. Que não se vai voltar a criar expectativas. Que não se vai voltar a sofrer.

A necessidade de escolha não tem receitas infalíveis. Tentamos agir bem sem garantias de resultado. É uma certeza interminável. Uma decisão solitária, que torna fundamental a ideia de perdão, porque essa é a única hipótese que há para diminuir a presença do abismo sobre o qual não pode ser lançada mais do que uma instável ponte. E como tudo é incontrolável e imprevisível, a felicidade não pode deixar de ser infundada. Constrói-se a si mesmo, Diariamente. Deixa por conta do indivíduo que age, a tarefa de descobrir e aplicar o princípio que se adeqúe às circunstâncias. Somos forçados a enfrentar a nossa autonomia.

Crescer é aprender a viver com o caos. Crescer é aprender a viver no equilíbrio entre a necessidade de conforto e a necessidade de excitação. Uma ameaça constante que há em aceitar que só há as estradas que fazemos, que se fazem, ao caminharmos por elas. Não há verdade maior que sossegue os anseios e premonições, algo que garanta o afastamento do erro. Estamos abandonados à nossa própria inteligência e vontade.

Andei a mascarar uma realidade de uma ordem humana incapaz de suportar o só poder contar com os seus meios para justificar os limites da sua existência. Uma dependência em relação a coisas e processos que não posso produzir, controlar ou prever.

Foi um erro que por preguiça, medo ou conforto, tenha deixado de acreditar no futuro. Existir é como viver rumo a algo. A diferença está entre o predito e o efectivo. Pensar no que está para vir torna a vida um acto de superação. Mantém viva a esperança de plenitude, mantendo a vida em aberto, incompleta.

Arrumações

Passei o dia em arrumações. Acabei a deitar fora grande parte das coisas que trouxe da outra casa, algumas das quais, nem de dentro dos caixotes saíram. Esvaziei uma divisão à custa de postais antigos, telemóveis avariados e aparelhos descarregados. Deitei fora a ampulheta cor-de-rosa que nunca me serviu para nada, bem como o cabide de madeira que me foi dado por um amigo italiano, que nunca deitava nada fora por considerá-lo um acto de desrespeito para com o seu passado. Encontrei dezenas de bilhetes de cinema de filmes dos quais já nem do enredo me lembro, quanto mais da ocasião que me levou a guardá-los.

É sempre curioso descobrir conforto como adulto, em algo que nos perturbava enquanto crianças, como a mim me perturbava desfazer-me das coisas. Existe algo profundamente libertador no acto de fazer escolhas e deitar fora.

Aprendi isso com a idade. Ou então cansei-me de andar a correr. Despertei para a privacidade das coisas belas, no que nelas há para apreciar. Deixei-me seduzir pela comodidade do que já conheço, tanto como aceitei o desejo de coisas, que nunca quisera assumir, por medo de perder o que tinha ou de ganhar algo para o qual me sentia preparado. E com essa coragem, encontrei um mundo novo, cheio de palavras, das minhas, dos outros, como se apenas longe da rotina, fosse possível escutar o mundo.
Um novo mundo onde as coisas, ao contrário de se sucederem, evoluem. Acredito que isso seja mais difícil de enfrentar, quando ainda não se fez o suficiente para deixar de acreditar, que o que nos vai definir, ainda está por vir.

Hoje estou familiarizado com termos como determinismo biológico, condicionalismo da educação, ou força das circunstâncias, que tornam certas coisas, não predestináveis, mas praticamente impossíveis de evitar ou modificar. Grande parte do que aprendi até hoje, foi em deixar no passado os momentos da vida que nele acabaram. Evoluí na minha maturidade quando aceitei que existe um limite a partir do qual, deixam de existir razões para justificar as coisas que nos vão acontecendo. Pode-se dizer que não se fará um gesto enquanto não se entender o que levou coisas importantes e sólidas na nossa vida, serem reduzidas a pó, mas depois de o ter feito, o que retirei da experiência, foi um desgaste estéril.