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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A solidão, sei-o hoje, é irremediável.

Foi preciso passar por tudo isto para compreender que as relações não servem para nos proteger das nossas fraquezas, nem para nos libertarem da ilusão que temos de nos salvar da solidão. No fundo, estamos irremediavelmente sós, condenados a viver uma condição total, como uma situação passageira.

Não sei se já aprendi a aceitá-la como parte do integrante do que sou, mas sei que luto diariamente por deixar de a ver como uma dor à qual preciso escapar. Se amar é dar sem pedir e partilhar sem expectativa de receber, então não sei se alguma vez amei, porque toda a vida usei das relações para compensar o que julgava me faltar, exigindo atenção e tornando-me dependente de outro, concentrado que estava em tirar para preencher, ao invés de viver, acabando a suportar relações vazias, apenas pelo medo de estar só, gravitando à volta desta dependência, convencido que a felicidade me esperava do outro lado, do lado onde havia outro, do lado, onde não estava só.

A solidão, sei-o hoje, é irremediável.
Depender dos outros para a minha satisfação emocional, é a minha maior carência e a causa que me levou a projectar nelas, nas relações, as minhas inseguranças, transformando-as em experiências sofridas de perda e ruptura.
A solidão, sei-o hoje, é irremediável.
Não sei se é possível viver as relações como o encontro entre dois seres conscientes da sua condição individual, que se juntam para partilhar, mais que para exigir.
Ninguém nos pode libertar de um isolamento que não se pode atravessar.
Ninguém pode ser libertado de algo que não é uma prisão.
Dele, não há salvação, porque é um destino irrevogável, não uma etapa circunstancial.
E ao destino, há apenas a possibilidade de o enfrentar aceitando.

Perguntam-me porque me isolo, me isolei, porque deixei de dar, de procurar, de me mostrar.
Desconheço se é possível a auto-satisfação emocional. Mas toda a gente morre só, por muito acompanhado que se tenha estado. Não se pense que estou com isto a a antecipar a morte. Não. Estou apenas a tentar aprender a viver com algo, que é tão irredutível quanto esta.

O que tenho para dar, é aquilo que sou. E o que sou é a minha riqueza. Desisti de tentar mostrá-la, exibi-la, seduzi-la, a partir do momento em que aceitei que a única forma de não me sentir só, é aprender a deixar de procurar nos outros, a cura para essa dor.
O que é inevitável, pouco mais deixa a fazer que não aceitar.

Se calhar a vida não passa de um conjunto de acontecimentos sem simbologia, que por apenas existirem por si sós, retiram todo o sentido ao acto de sofrer. Desconfio que só nos momentos de dor e fraqueza, é que reconheço o humano que há no outro. Desisti de fugir da dor, no dia em que o compreendi que isso só me afastava daquilo que a ela me unia.

A solidão, sei-o hoje, é irremediável.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Uma amostra do que está para vir

EPISÓDIO 11

Esta semana, corri com a Isabel cá de casa, depois de lhe ter explicado pela enésima vez, que não a queria voltar a ver. O que acontecera entre nós, passou-se numa altura em que as frustrações acumuladas, me levaram a procurar uma relação inofensiva. Quando a mesma evoluiu para o oposto, deixou de fazer sentido. Mesmo respeitando-a por fazer parte da minha história, já lá vão cinco anos. Esta tendência dela de regularmente voltar, para se por de novo a jeito, é um tipo de masoquismo, pelo qual tenho cada vez menos apreço.

Não a recebi bem. Não podia. E ela sabia disso. Aliás, ser maltratada, era uma componente essencial do seu ritual de sacrifício. Desconfio que acredite que a sua abnegação me iriam levar a reconsiderar, embora não consiga perceber onde vai ela buscar indícios de que tal seja possível de acontecer. Era uma visita tão inesperada como indesejada, e eu não lho escondi.

- Isabel, quantas vezes preciso de dizer, que não tenho qualquer interesse em estar contigo?

Ela foi uma das experiências mais desagradáveis que tive na vida, que não tenha envolvido hospitais. Tirando o mês que passámos em Donostia, logo a seguir a nos termos envolvido pela primeira vez, na arrecadação de casa de uma portuguesa que lá conhecemos, durante uma festa, nós nunca mais nos demos bem. Ela irritava-me, qualidade essa que nunca perdeu. Era exagerada, desequilibrada. E como se isso não bastasse, não via a incompatibilidade, como uma justificação para a ruptura.

Quando atingimos o limite do insustentável, pus fim à relação. A decisão, só a tornou mais insuportável. Começou a ligar-me a toda a hora, de tal modo, que acabei a mudar de número de telefone. Ela passou então a aparecer-me em casa, de modo imprevisto e a altas horas da noite. Justificava-se com o argumento que pensara em mim na cama com outra e não suportara a visão. Ameacei fazer queixa à policia, depois de um telefonema para os pais dela, não ter surtido qualquer efeito. O cúmulo foi atingido, irrompeu pelo restaurante, no qual estava a jantar com uma ex-namorada, para me encher de insultos e acusações. Se houve alguma vez que estive perto de bater numa mulher, foi essa. Não o fiz, porque o dono do restaurante me conhecia e conseguiu metê-la na rua, deixando-me com a vergonha de explicar, porque razão andava a ser perseguido. Durou quase 9 meses, esta coisa. Sensivelmente o dobro do tempo que estivemos juntos.

Pode não parecer muito, mas foi o suficiente para me cansar das birras que fazia, sempre que por alguma razão precisava mostrar a sua reprovação, coisa que, diga-se, era bastante frequente. Do que recordo dela, é o protótipo da mulher mimada e aborrecida, que voga os dias entre a melodrama e a enxaqueca, persuadindo pelo capricho e verbalizando pelo histerismo.
Os pouco desvairos sexuais a que se permitia, eram uns ocasionais broches em locais públicos, de preferência parques de estacionamento e casa de banho de centros comerciais. Ficava excitada sempre que ia às compras. E se eu a acompanhava, era para não perder esses escassos momentos. Porque fora eles, ela é daquele tipo de pessoas que passa aos lado da vida, enquanto faz grandiosos planos sobre como vivê-la. Senti-me intoxicado. Larguei-a de vez. E mesmo após a policia e as ameaças, ela continuou a aparecer. Deixou-se de perseguições, mas sempre que arranjava uma novo namorado, fazia questão de mo vir anunciar. Não me tenho cansado de lhe dizer, que se pode poupar ao trabalho, mas ela não é mulher para ouvir o que não quer. Rapidamente o transforma em provas da sua vitimização, como se o objectivo de todos os outros, fosse contrariá-la.

- Tens de perceber que a vida dos outros não gira em teu redor.

Escusado será dizer, que isso ela também não ouviu. Se há mulher que personifica o ouvido selectivo, é ela. E isso, deixem-me que esclareça, não é coisa que me atraía por ai alem.

Cada vez que me lembro...no princípio, foi o queridinho. Ai queridinho deixa que eu ponha, ai queridinho deixa que eu meto, deixa que eu faço. E o queridinho deixou. E quando deu por si, estava sentado à frente de dois comerciantes de hortaliça, que por sinal eram seus pais. Ambicionavam casá-la com o filho do sócio e fundir nessa união, a hereditariedade das couves.

- Com que então, quer namorar a minha filha...!

Quer dizer, querer, não queria, mas que estava ali sentado, estava. Tenho a dizer que se mais fosse preciso, o que nem era o caso, conhecer os pais dela, foi motivação suficiente para saber, que não queria aquela mulher. Uma vez, na escola, um dos padres tinha-me dito que as pessoas queriam-se claras e directas. Respondi-lhe que isso era só para aquelas que não conseguiam ser eufemísticas e complexas. Levei logo um estalo, para “não estar a armar-me em esperto”. Os pais dela, tinham o mesmo tipo de intolerância.

Foi por tudo isto, que a informei que precisávamos de falar.

- Sabes quando as maravilhas do amor, nos levam a ver nos defeitos do outro a sua beleza? – perguntei-lhe.
- Sim. – respondeu ela, deliciada.
- Contigo, nunca tive isso.

Não sei se a tentativa dela de usar os outros começou aí, ou se já vinha de trás. Sei que namorou com dois conhecidos meus. Foi para ma dizer que tinha começado a namorar com o terceiro, que me apareceu cá em casa, sem pré-aviso.

- Quantas vezes preciso de te dizer, que não estou minimamente interessado em saber com quem é que tu andas?!
- Não tens ciúmes?
- Se é para mos fazeres que estás com ele, bem o podes deixar que não tenho nenhuns.
- Não és capaz de amar! – queixou-se ela.
- Claro que sou; só não a ti! – respondi.

E mesmo depois de ter sido desagradável, tive de a empurrar para fora de casa, já que ela, por si, não achava que o meu comportamento fosse razão para tanto. É por este tipo de situações que às vezes acho, que devia comprar um cão.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A minha última criação

O homem bala

Desde pequenino que tudo o que ele quis ser foi homem bala. Desde que, aos 3 anos, viu pela primeira vez o homem a sair de um canhão. Ficou encantado. Afinal, os homens também voavam, desde que com o impulso certo. E foi vê-lo, desde os 6 anos, a correr todos os dias para o local de ensaio, para ver o canhão disparar as suas munições humanas.
Quando aos 12 anos o homem bala residente do circo morreu como consequência de um cálculo de queda mal feito, surgiu a oportunidade que tanto desejava. Apresentou-se no circo convencido que podia ocupar o lugar deixado vago. O dono do circo olhou para ele e achou-o muito novo. Mas precisava de alguém para o lugar e o moço quase que pagava para desempenhar a função. Argumentou que não se devia impedir alguém de atingir os seus sonhos. E deu o lugar ao rapaz, que duas semanas depois, estava a ser disparado pelo canhão.
O problema como o homem que acertava a calibração do tiro tinha morrido e sido substituído por outro que não conhecia o significado da palavra, quanto mais acertar com ela. Mas toda a vida tinha trabalhado com o homem bala e o dono do circo convenceu-se que ele devia saber. O tiro só não saiu pela culatra, porque a potência foi muito além do programado, e logo no seu primeiro tiro, o jovem ficou espetado em cima de um espectador. Por sorte, nenhum morreu, mas acabaram no hospital.
Como uma sorte nunca vem só, o tipo em quem o jovem aterrara em cima, era comerciante de ostras e andava à procura de um ajudante. O rapaz achou que com as duas pernas partidas ia tardar até estar em condições de ser disparado de novo e aceitou, na sua cabeça temporariamente a apenas com o objectivo de garantir o seus sustento, o emprego na apanha das ostras, apanha essa que se veio a revelar altamente frutífera, quando um grupo de traficantes contactou o pescador, a fim de utilizar as ostras para traficar droga, que tão bem ficava, acomodadinha dentro das mesmas.
E o jovem deu por ele, rico, com 18 anos, pois o negócios correu muito bem. Quando se viu milionário aos 18 anos, o jovem satisfez o seu maior desejo de sempre: mandou construir um gigantesco canhão em ouro, e no dia que fez 19 anos contratou um tipo para acender o rastilho que o levou muito para lá de qualquer tiro de canhão alguma vez feito, por qualquer homem bala.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Excerto do Manuscrito

Comprei uma edição manuscrita do “Banquete” de Platão. Encontrei-o por acidente num alfarrabista. Data do século XVII, a acreditar no velhinho que mo vendeu. Mas não foi por isso que o comprei. Trouxe-o porque era um dos livros que a minha mãe costumava ler. A seu modo ela acreditava em valores absolutos e verdades inquestionáveis. Eu sempre disse a mim mesmo que isso não existia, mas hoje já não tenho tanta certeza.

Cresci e fiz-me adulto a ouvir dizer que tudo era possível, logo, podia ser aquilo que quisesse. Com o esforço e a sorte certas, não há limites para a imaginação. Acredito que isso seja mais fácil de acreditar quando ainda não se fez o suficiente para deixar de acreditar, que o que nos vai definir, ainda está por vir.

Hoje estou familiarizado com termos como determinismo biológico, condicionalismo da educação, ou força das circunstâncias, que tornam certas coisas, não predestináveis, mas praticamente impossíveis de evitar ou modificar. Grande parte do que aprendi até hoje, foi em deixar no passado os momentos da vida que nele acabaram. Mas isso é uma conquista recente. Evoluí na minha maturidade quando aceitei que existe um limite a partir do qual, deixam de existir razões para justificar as coisas que nos vão acontecendo. Cansei-me de me sentir ansioso, aligeirei o peso da exigência. Pode-se dizer que não se fará um gesto enquanto não se entender o que levou coisas importantes e sólidas na nossa vida, serem reduzidas a pó, mas depois de o ter feito, o que retirei da experiência, foi um desgaste estéril.

O meu pai sempre me disse que se havia adjectivo para caracterizar a vida, era ironia. Finalmente entendo o que ele queria dizer. Ao tentar evitar uma situação, acabei precipitando o que era necessário, para que ela acontecesse.

Não sei se a solidão é uma má coisa. Sempre fui um pouco isolacionista. Conforta-me o silêncio da solidão. Um sentimento contra o qual lutei grande parte da minha vida, pois isolacionista ou não, a minha necessidade de contacto e apreciação é tão grande como a de qualquer outro. Para quem é naturalmente sociável é difícil compreender o esforço necessário para ultrapassar a exclusão. Não que tenha sido um estigmatizado, porque não fui, mas acreditei que o que tinha de fazer para o evitar, era ser o contrário do que naturalmente era. É fácil cair na tentação. Pensei que se mostrasse o quão bom conseguia ser, não haveria como não gostarem de mim.
De certo modo, não precisei dos outros. Estigmatizei-me a mim próprio, à conta da apoquentação pelo erro e da culpabilização pelo fracasso. Quantos dias não passei preocupado em estar à altura de um determinado padrão, incapaz de compreender que a aceitação tem mais a ver com o envolvimento e a sinceridade, que com a excelência e o rigor. Por cada nova tentativa falhada, por cada nova frustração emocional, fui dizendo a mim próprio que era normal. Enquanto não acertasse, não seria aceite. E a culpa seria inteiramente minha. A reprovação dos outros era um acto lógico. E com essa ridícula presunção fui-me iludindo, negando-me a mim próprio o direito de errar. Pior que isso, o direito de ser amado por isso. Neguei a mim próprio, aquilo que me fazia humano.

sábado, 11 de julho de 2009

Alemão resolve discusão sentando-se

Li lá. Preto no branco. Ele tinha o dobro do peso da mulher.
Ela provocou-o. Despejou cerveja sobre o teclado.
Ele reagiu. Mas não queria ter-se sentado em cima dela.
Ela é que se escondeu onde os braços dele não chegavam.
Nem os braços nem os nervos, pois vai-se a ver, ela morreu sufocada, com 18 costelas partidas e sabe se lá quantas mais perfuradas, enquanto ele tentava encontrá-la ao seu redor.
Foi dado como inocente.
Aparentemente o juíz concordou que ele o fizera sem dolo, apenas com o eventual acto de quem usa o que tem e se perde no controlo do mesmo.
Acontece muito.
E nem fui eu que inventei.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Não tinha mais nada para fazer



What must be done

Musiquinha do Nick Cave e Warren Ellis.

domingo, 5 de julho de 2009

Excerto do Manuscrito

“Hoje aqui, falou-se muito de apatia, mas não da falta de vontade dos governos em contrariar os poderes com quem pactuam, seja por ganância, necessidade ou fraqueza. O entretenimento constante, a obsessão com o estatuto e a redução de todas as relações a negociações, contribuem para que o valor de tudo seja medido pela quantidade. Isso é uma boa coisa contra a qual te rebelares. Contra a diminuição do teu valor humano, em detrimento do teu valor utilitário e mecanicista. Aceitares isso é aceitares ser privado de uma componente inultrapassável da tua experiência como humano, que é o de não te sujeitares à tirania da padronização. Contra essa também te deves rebelar. Contra a tua redução a um mínimo denominador comum.

A questão que deves colocar a ti próprio, é se preferes viver naquela pulsão vital, que te leva da dor extrema ao prazer intenso, ou se preferes a cómoda monotonia da apatia emocional. Não te posso dizer qual deve ser a tua resposta. Em última instância, tu és responsável pelos teus actos e não deves prescindir desse direito, dissociando-te das consequências dos mesmos, porque com isso, arriscas-te a perder o direito à imperfeição, já para não falar da oportunidade de mostrares a ti próprio, do que és capaz. Muita vez, acho que a decisão que tive de tomar, foi se preferia ser escravo da dúvida ou do controlo. Digo-te que preferi ter o direito a parar para pensar.

Não te posso dizer contra o quê mais te deves rebelar, a não ser a favor do teu direito à descoberta, ao erro, à experiência, ao desafio. Isso nem sempre é fácil, mas todos nascemos com o direito inalienável de não passar pela vida, sem descobrir aquilo pelo qual ela vale a pena ser vivida. Não te estou a dizer para saíres daqui e ires assaltar o parlamento, até porque a esta hora não vais lá encontrar muita gente. Estou a dizer que deves questionar-te. Exigir respostas. Desprezar a cobardia da ignorância; a não te dissociar-se do esforço e da frustração, que são sentimentos tão inevitáveis quanto naturais. Mais tarde ou mais cedo, vais precisar de te envolver nas decisões que a ti dizem respeito. Não deixes que as circunstâncias decidam por ti, adiando respostas, por ter receio de não encontrar as perguntas. E esse envolvimento na tua existência, é o principal direito que deves defender, rebelando-te contra tudo o que o impede, desde a castração à corrupção. E agora vou-me calar, que á velocidade com que a sala se está a esvaziar, fico sem audiência num instante.”

quarta-feira, 1 de julho de 2009

" O Desagradável"

- Eu bem tenho tentado, mas não há maneira de lá chegar. Eu sei que as coisas demoram tempo a conseguir e que uma pessoa deve aguentar, mas estou cansado. Só que também não sou pessoa de desistir. E depois, se uma pessoa não insistir, nunca vai conseguir retirar o que quer da vida! O que é que tu achas que eu devo fazer?
- Acho que se não consegues retirar o que esperas da vida, mais vale esperares aquilo que consegues tirar.
- Está a dizer que devo desistir do que quero?
- Não. Estou a dizer que deves passar a querer aquilo que consegues atingir.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Crónica 1, Dia 0

Quando decidi que ia passar a conhecer-me, morri. Desde então tenho estado morto. Morto para o mundo, vivo para mim. Compreendi que para se viver, primeiro é preciso morrer. Acreditei. E para me criar, tive que me destruir.

Esqueci o passado. Destruí o que era para renascer das minhas contradições. Passei a ter uma existência própria.
Mas como o mundo nunca vê as transformações até estas estarem concluídas, não viu a existência que passei a ter. Porque esta existência era só minha. Fiquei sozinho. E assim passei a ser singular.
Depois de morto, passei a viver. E quando fiquei sozinho, apareceram os outros que também tinham ficado. E não tendo mais anonimato, anódinos nos tornámos. Quando tudo deixou de existir, passámos a existir somente nós. Um mundo próprio, habitado por mortos. E os mortos não têm vontade. Já nada têm a esperar. Quem não espera, não questiona. Só assim a sociedade proporciona aos seus vivos, aquela vida de mortos.

Os mortos vivos, viciosos e arrogantes.

Estou a ralar-me, tão especial coisa é, que nem bem sei que estou sentindo. Reasseguro-me por mim só.
É estranho como mova a minha vida em dias, para não ficar intoxicado com as horas.
Prefiro assim.
Conhecer é pior. É dar importância ás coisas. E eu não quero ser importante. Não quero pretensões, só quero estar, e para isso tenho de ser despretensioso. Prefiro o anonimato.
Quero permanecer na ignorância.
Não quero dar e para tal aceito não ter de receber.
Não quero alucinações paranóicas de pecados que não cometi.
Ao viver todos os dias, não sou bonito nem feio. A solidão ensinou-me a comer peixe á 6ª feira. Não quero deixar de o fazer, porque não quero pensar no que fazer em alternativa. Não me interessa conhecer, para a seguir deixar de existir. Quero um expoente camuflado de vertigem. Quero existir somente, sem sequer compreender o que faço.

Todas as horas permanecem ridículas até serem nossas.
A indiferença é maior verdade da natureza.
Soam-me aos ouvidos, relatos de profetas.
Se não estivesse demasiado cansado de pensar, até escolhia agora um projecto de vida.

A qualquer hora, em qualquer lugar, não interessa onde, em todo o lado, sei que estou lá. Não adiante disfarçar. Pulsa-me nos ouvidos. Toca-me nos dedos. Dá vida a tudo o que mexe. A tudo o que vem, a tudo o que vai. Toda a gente o sabia, toda a gente o sabe. Amo-te. És o expoente dos meus sentidos, das minhas emoções. És a razão do meu ser, por seres a razão do meu sentir. Porque vivo o que sou, sou o que sinto, e o que sinto, é que consigo ser em ti.

Mudanças

Uma mudança nunca faz mal a ninguém. A mim, faz-me sempre sentir pequeno. Nunca sei se está mesmo a acontecer algo, se sou eu que estou a fazer um filme ( isso é certo que estou, mas alguma razão hei-de ter para o fazer).

É a mesma coisa sempre que nos apaixonamos. Fico sempre diminuído perante a possibilidade de me poder apaixonar. Não o faço muita vez. Acho sempre que não vou aguentar. Tudo tem o seu tempo. E eu não fui feito para suportar o tempo dos outros.

Constróem-se casas só para se ter um sítio para ficar. Já não consigo apaixonar-me pela terra. As transformações deixam-me como um clandestino, à beira de se tornar náufrago, com tudo a acontecer ao mesmo tempo, sem forças para dizer basta, que é esta a última vez.

Pequeno, sinto-me aconchegado. Tenho tendência para me enroscar sobre mim próprio. Já o vi acontecer muitas vezes. E sempre que levanto a cabeça, perco o contacto com o pulso, que sem pensamento, entra em hibernação. Digo o que tenho e não com o que fiquei. Porque quero acreditar que estão a acontecer mudanças. Os lugares mudam muito. O tempo faz o mesmo.

Eu é que não quero apaixonar-me pelo tempo.

Ao desejar, a propriedade passa a ser tudo.

Só que eu não quero ter nada.

Não quero responsabilidades com a posse.

Tudo estaria certo se as metáforas fossem filhas do desejo.

- À quanto tempo não te via!!!

A gente vai e vem.

Mas uma voz chama-me sempre de volta. Faz-me sentir pequeno. Vejo-o nitidamente.
Vou-me embora, quero ir correr. Não me interessam as mudanças, porque as evito à força de as ter. Estou farto de estar em mim. Um destes dias, escapo-me para fora do mundo. Isso sim, é que seria uma mudança.

Aqui, tudo vai sempre ser igual.

Luzes

Mas será que alguém viu a luz? Podem vê-la da mesma forma que eu? É aqui, onde a disposição encontra o dueto, que o tempo se limita a crescer? Estão a perceber o que eu estou a tentar dizer?

Já se aperceberam, por certo, que ninguém consegue ver para dentro de ninguém. Vocês já se aperceberam que estão do lado que consegue ver? Só me dirijo a vocês nestes modos, porque consigo ver dentro de mim o que os outros não vêem. Vocês são os outros, aqueles que não conseguem ver.
Não sei o que vocês entendem por vida. Para mim, é mais que um simples rosto. É desejo de ter.
É fazer o que tenho a fazer, sozinho de um lado, até me entronizar como real. Preciso disso mais do que qualquer outra coisa. Diz-me que posso ser aquilo que quiser. Sozinho, a vontade deixa-me feliz.
Será que é isto ser real?
Alguém mais consegue ver esta luz?
Já alguém percebeu de que lado é que está a visão de nós?
Já alguém percebeu que essa é a única força que se pode ter?
A subjectividade é genérica. A natureza é a verdade do subconsciente. A verdade não tem complexos, porque a mentira precisa de o ser. E sem mentira, não há verdade.

Que interessa se o passado corta ou não connosco? Já tenho de imbecil, tudo o que devia ter. Para uma coisa existir é preciso o oposto da mesma. As coisas são complexas. Definem-se umas nas outras através da comparação. Não saber isso, seria não querer ver a luz, que é a única entidade absoluta.

Mas será que alguém quer ver a luz?

Já deixei de querer ser forte, para assim o passar a ser. Só não pensando é que as coisas passam ao subconsciente. Só aí há natureza. Só aí há verdade. Será que mais ninguém consegue ver a luz?

A razão

Chegou até mim pelo som. Um oud. O som agudo das cordas a vibrar, um lamento, portento, choro consolado de um ser sem esperança. Acendi um cigarro que não fumei. Deixei-o consumir-se, tornar-se cinza, em respeito para com o suspiro que me chegava, desde o outro lado do muro. Mas não estava só, aquele som...
... Um piano entrou, lento...prolongado...pingado...Não estava só, aquele som...
... Outro se lamentava, melancolicamente, consolando-se mutuamente. Fiquei sentado, a escutar, em silêncio, a escutar o incestuoso som de dois instrumentos que se amavam como irmãos.
Fiquei sentado naquele banco, encostado à parede, a ouvir aqueles dois instrumentos copularem meticulosamente ao entardecer, gerando um prodígio que me fez sorrir. Afinal era possível, sorrir.
Como se nada mais fosse que uma simples conversa, gémea no tempo e espaço, um som secundava o outro, interrompia-o, respeitava-o, preenchia-o. Nada parecia mais justo, nada parecia mais certo. Naquele instante, apaixonei-me pela arte. E nesse momento, talvez mesmo somente nesse único momento, senti que a razão de ser, tinha acabado de se revelar.

Sempre me senti um esteta, que ama as coisas belas do mundo. Amo os corpos que me despertam pensamentos grandiosos e sentimentos empolgantes. Na minha intimidade, sou um purista, que vive na simbiose de todas as contradições. E nesta simbiose, dei à luz a razão como a criação pura, ausente de regras que não as assumidas.

Como tantos outros saturo na realidade a perplexidade que me puxa para fora daqui, num apelo à preservação da fuga, da fuga da dor, do medo, não da solidão, mas do desconforto, daquele que se agarra ao meu íntimo, incapaz de me deixar saborear a paixão lenta que deveria envolver-me todos os dias. A minha viagem é como a de um homem que procura compreender esse incómodo aparentemente sem razão.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Não gosto de poesia

Não gosto de poesia.
Irrita-me.
Não consigo escrever poesia.
Digo mesmo que nunca escrevi poema nenhum.
Não me preocupo com isso.
Nunca quis ser poeta.
Não gosto de poesia.
Irrita-me.
Recuso-me a lê-la.
Por mim os poetas podiam morrer todos à fome.
Óbvio que não de nada de pessoal.
A bem ver, não quero que morra ninguém.
Só que me irrita os tipos que escrevem sobre sentimentos que nunca fui capaz de sentir.
É por isso que não gosto de poesia.
Morre sempre alguém no fim.
Nem que seja eu.

A minha última criação

"Simplesmente estava à espera de mais"

Não adianta de nada ter expectativas.

- Se calhar a minha vida mudou quando tu entraste nela.

Existe sempre aquele tipo de coisas que nos escapam à compreensão.

- Ou se calhar a minha vida mantém-se na mesma e eu é que mudei.

O pior são as desilusões. Nem adianta queixarmo-nos, pois aparece logo alguém a dizer que não devíamos era ter criado expectativas.

- Provavelmente fui eu que me resignei e aceitei a ideia de que nada adianta lutar.

Falam-me de maturidade. Maturidade, para mim, é quando uma coisa que é boa demais para acontecer, não acontece.

- Toda a gente fala em amar e deixar amar. E só de começar a falar assim, já sinto que algo está a mudar.

Só por ser impossível é que se transforma em boa demais. Não estou a queixar-me. Estou a constatar. Não tenho uma má vida.

- Deixei de acreditar que sou forte e lá aceito que existem outros melhores que eu.

Simplesmente, não era bem isto que estava à espera.

- Às vezes até parece que tenho de pedir desculpa a alguém, por gostar dela.

Iludi-me. Não sabia. Tento desiludir-me sempre, porque não acho possível deixar de o fazer.

- Não era bem isto que tinha em mente, mas serve. Se calhar até chega.

No dia em que deixar de o fazer, deixo de pensar no prazer, o que é o mesmo que dizer que deixo de pensar no que existe.

- Por mais que se tente, acaba-se sempre a cair no mesmo sítio. E as pessoas que lá estão são sempre as mesmas, que sofrem do mesmo que nós.

Mas é disso que se fala.

- A um tipo, só lhe resta gostar delas.

Sem pensar no que se gosta, já não há vontade ou sabedoria para se criar expectativas.

- Não estou com isto a dizer que é mau. Simplesmente estava á espera de mais que simplesmente isto.

Às tantas, é mesmo isso que é viver.

Lá estou eu a ser demasiado

Todos os grandes homens se apaixonam pela ideia errada. A vida é uma farsa histórica, feita de ideais messiânicos que não têm o poder de nos salvar.
Que nobres são as teorias da auto-salvação. A realidade é o que é e um grande homem pode morrer numa queda na cozinha. Acredita-se no destino, que para mim é um conceito horrível. Não me agrada a ideia de não controlar uma coisa da qual sou o agente, como é a minha vida. Porque o agente sofre na pele os constrangimentos da acção. A vida é uma ideia bela, mas irónica. Irónica, dizem, porque a sua compreensão só chega no momento do seu fim. Mas isso é o que dizem. Eu não sei nada disso. Ainda não cheguei lá.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A minha última criação

"Aconteceu no passado dia 15"

1 – O tipo gostava.
2 – De tudo o que ela dizia?
1 – Qualquer um gostaria.
2 – De ser convidado?
1 – Que alguém sentisse fascinação em conhecê-lo.
2 – Ah!, pois, já mo tinham dito.
1 – Ficar atordoado.
2 – Tipo objecto?
1 – Tipo pássaro.
2 – Ah!, mas não foi convidado?
1 – Assim por assim, não.
2 – Deve ser estranho ficar de lado.
1 – Ele amava-a. Passou-se.
2 – Para o outro lado?
1 – Foi uma vergonha.
2 – Mas caíu sozinho?
1 – Havia mais uns que não foram convidados para a festa.
2 – Mesmo depois dele lhe ter dito tudo a ela?
1 – Foi uma conversa de mudos.
2 – Houve carne, ao menos?
1 – Vegetarianos.
2 – Comiam ovos, portanto. E como ouviste dizer? Foste?
1 – Fui.
2 – Não pensaste sequer em dizer uma única palavra?
1 – Calei-me.
2 – Havia silêncio?
1 – Um tipo cantava, bêbado.
2 – Na água vem a vida!
1 – É um facto.
2 – E quem chorou?
1 – O tipo que estava a sangrar.
2 – Tudo para tentar vê-la?
1 – Não só vê-la, matá-la.
2 – E caiu numa armadilha.
1 – Foi ensaboado devagarinho.
2 – Só assim?
1 – Ficou sozinho, caído no chão da sala, com a cabeça aberta.
2 – Não ficou mais nenhum convidado?
1 – O verdadeiro amor espera, disse-lhe ele.
2 – Sonhava-se com chuva?
1 – Havia um que dizia que sonhava com o amor preso á pele.
2 – Não trouxeste dessa droga que ele tomou?
1 – É o que estás a fumar.
2 – Ah… E então ele apareceu?
1 – Falou.
2 – Ela respondeu...
1 – Disse-lhe sem lógica que tinha chegado o fim.
2 – E ele disparou.
1 – Cabeças.
2 – Só ficou ali a ouvir o que ninguém tinha a dizer.
1 – Era o fim da esperança.
2 – Mas não para ela!
1 – Sim. Falhou o tiro.
2 – Acertou no que sangrava?
1 – O pobre que acreditava no amor, foi morto por causa dele.
2 – Um amor que nem era o dele.
1 – Tinha chegado a hora do Orfeu, nada mais tinha a dizer.
2 – Foram nadar todos juntos, os que ficaram.
1 – Quando alguém os convidou a esquecerem os dois corpos.
2 – Não foi preciso convite?
1 – Não para os que estavam à espera de ser convidados.
2 – E quando vieram desataram aos tiros?
1 – Desfizeram-nos.
2 – E ela ficou sozinha?
1 – Chorou depois de cair o muro.
2 - Ele não tinha sido convidado.
1 – Eram tribos rivais.
2 – E ela era rival?
1 – Só até o ter descoberto.
2 – Mas de nada serviu. Todos morreram.
1 – Certo, certo, é que ninguém morreu afogado.
2 – Nem por excesso de brilho?
1 – Não. Era um mundo bonito.
2 – Com ambos a acharem-se especiais.
1 – Pelo menos, um para o outro.
2 – Não havia ali pertenças nenhumas?
1 – Não havia controlo.
2 – Ele dizia-se o sucesso de um corpo brilhante.
1 – Como ela se achava perfeita.
2 – Ignorou-se tudo.
1 – O tipo era um cretino.
2 – Ela não pertencia ali.
1 – Não havia mais nada a dizer.
2 – Ela chorou nessa noite.
1 – A morte é uma porcaria.
2 – Ele tinha um cabriolet.
1 – Carreira de sucesso.
2 – Mulher e um filho.
1 – Putanhices.
2 – Divórcio.
1 – Era bom na cama.
2 – Ela gostava.
1 - Ele gostava de muitos.
2 – Mas ele gostava era dela.
1 – Ele nem sabia.
2 – Nem queria saber.
1 – Até que os apanhou.
2 – Ela ardeu com outro.
1 – Não havia televisão.
2 – Nem jornais.
1 – Foi só foder.
2 – E houve um fim?
1 – Quando morreram.
2 – Cada um à sua maneira.
1 – Eram fascinantes.
2 – Cada um por si.
1 – Rezaram.
2 – Por algo puro e singelo.
1 – Para ele.
2 – Para ela.
1 – Quem ouvia voz dela quando falava.
2 – Nunca tinha sido adorada daquela forma.
1 – Sentiu dor por ele.
2 – Ela viveu.
1 – Houve sangue.
2 – E coisas que não se viram.
1 – Tu, eras como eu.
2 – Leva contigo a dor que eu sinto.
1 – Assim ninguém te vai adorar.
2 – Houve dores de cabeça.
1 – Acusações.
2 – Atentados.
1 – A cidade dividiu-se.
2 – Os gerentes comerciais deitaram fora as gravatas.
1 – Só os doentes escaparam.
2 – Como nós.
1 – Houve fraude.
2 – Ela morreu de fome na prisão.
1 – Qualquer coisa presa na garganta.
2 – Engasgou-se. Não podia comer.
1 – Ninguém lhe quis lavar a alma.
2 – Queimaram a igreja.
1 – Deixou de haver convites para quem quer que seja.
2 – A cidade morreu.
1 – Agora há só uma.
2 – Dividida em duas ilhas.

A minha última criação

"Bem Vindo ao Mundo dos Homenzinhos"

1.
“ Tinha 21 anos a primeira vez que dormi com aquela mulher...ah!ah!ah!... Não tinha nada; estava a gozar! Ah! Ah!. Li isto em qualquer lado e achei piada! E como responsável pela recepção aos novos, achei que ficaria bem. Para vocês, sou o primeiro rosto do sistema. E o sistema satisfaz todas as vossas necessidades!”
Um dedo no ar.
“Sim?”
“Isso quer dizer que se não estiver coberta pelo sistema, a necessidade não existe?”
“Deixe-se de perguntas parvas. Você não está aqui para fazer perguntas, mas sim para trabalhar. Interrompeu-me. Agradecia que não voltasse a fazer isso. Perdi-me. Está a ver! E agora? Tu aí, ajuda-me. Que estava eu a dizer? Ah, sim, já me recordo. Estava a dizer-vos que, dado esta situação ser nova, mandam um tipo simpático, eu, para vos receber! E agora, para não perdermos mais tempo, façam o favor de se dirigirem aos respectivos balcões, a fim de procedermos ao registo. Sejam bem vindos ao mundo dos homenzinhos!”.

2.
Não sou imigrante. Juro que não, embora possa parecer. Para se ser imigrante, é preciso ter-se algum ponto de partida, e este é o meu ponto de partido. Ainda não percebi bem o que sou. Neste momento sinto-me como se tivesse sido expulso do paraíso pelo Adão, depois de ter andado a tentar comer a Eva. Mas não fui. Nem sequer conheço nenhuma Eva. Para falar verdade, olhando à volta, não vejo nenhuma com a delicadeza que imagino, que a Eva devia ter...
“Siga, siga, não empate o caminho. É a andar para a sua secção!”
“O Sr. Já viu isto? Descobri que o melhor que se pode fazer é comprar. Comprar é a única atitude decente a ter. Compre homem. Compre tudo, não interessa para quê! Se for o que tem mais, porque razão se há-de preocupar com a utilidade das coisas!!?”
Largue-me, que coisa? Mas quem é este tipo? Já me falaram de profetas e de loucos, mas não devo ter prestado muita atenção a essas aulas. Pelo menos, agora não me recordo de nada que me possa servir.
“Homens à direita, mulheres à esquerda, animais na ponta. NA PONTA!! NÃO OUVIU MINHA SENHORA! Quero lá saber se a tartaruga tem reumático! Os animais vão para a ponta e não se fala mais nisso.”
Oh! Não é preciso empurrar! Que raio de gente tão enfática, esta.
“Ó minha sebosa, estas coisas não são à borla! Um tipo tem de pagar aos artistas. Quais? Aqueles que andam ali à luta no ringue. Sim, eu sei que são ursos, mas os ursos custam dinheiro. O quê? Pouco me importam os direitos dos animais. Eu cá, cumpro-os. Veja que até salvei a vida aos pobres bichos. Trouxe-os do Pólo. A senhora já viu o frio que lá faz? Como está a ver, eu praticamente como que salvei a vida ao pobre bicho. Ninguém aguenta muito tempo aquele frio! E não há nada para se fazer. É totalmente desinteressante. E acredite que eu sei, já lá tive!”.
Disseram-me que tinha chegado a hora de cumprir a minha função. Não me explicaram bem foi que tipo de função era essa. Nem que iria ser empurrado por tipos vestidos de crepe, até umas mesas onde estão sentados uns tipos de preto. E agora, que é suposto dizer?
“Número.”
O quê?
“NÚMERO, não ouviu?”
- 1978, respondo.
- Secção de origem?
- Ocidental.
- O senhor está colocado no nível C. Siga para lá.
Sou empurrado por dois tipos vestidos de crepe que me arrastam de frente da mesa. Mas para onde é que me estão a levar?
- Ouve lá, assumir uma função não é a mesma coisa que coacção física. Mas que raio! Alguém me explica quem é aquele gajo e porque raio há-de ser ele a decidir para onde eu vou! Eu quero reclamar disto! E qual é mesmo o nome do seu colega?
“Existe sempre uma dose de pré-conhecimento adquirido. Utilize-o.”
Mas como, se não param de me empurrar!?
“Ah!? Bateste-me?!!”
Mandei-lhe um soco.
“Estás feito.”
Pelo sim pelo não, é melhor dar um passo atrás.
“Anda cá.”
- Não te irrites, não podes. És um dos rostos do sistema. Lembra-te que o sistema é amigo e eu recordo-me do teu número.
“Mete-te a andar antes que me arrependa.”
Já eu não me arrependo. Ele estava a merecê-las.

3.
Nova porta, nova secção. Nova gente, mais mesas, mais barulho. Aqui estão todos vestidos de verde. Chamam-me ali de uma mesa.
- O Sr. É?
- Secção C.
- Credenciais.
- Aqui.
Andei 20 anos a estudar. Entrego o diploma que confirma a minha história.
- O senhor então está habilitado ao mundo dos homenzinhos, certo?
- Não tenho bem a certeza...
- O senhor é uma condição. É o reverso do corpo, o lado imaterial, e aquilo que o une a todos os outros seres, pois cada um tem uma condição. Qual foi a nota do seu exame final?
- 12.
- Hum...estou a ver. Não é lá grande coisa.
- Foi o que se pode arranjar.
- O senhor tem consciência de porque razão está aqui?
- Não.
- Chegou a altura do senhor se unir a um corpo, lá em baixo, na Terra. O senhor estudou para funcionar como o elo de ligação entre o sistema e o corpo que habitar. E é perante nós que o senhor vai responder. Tem a certeza de que se lembra do que estudou?
- Tenho andado com alguns esquecimentos.
- Então veja lá se se deixa de esquecimentos. A sua função é da mais profunda importância. A condição é geral a todos os humanos, e só muda a circunstância concreta em que se revela. A avaliar pelo seu diploma, o senhor está habilitado à Secção C. Não é o mais complexo. Mas tenho-lhe a dizer que a sua Área é a Ocidental. E essa é a mais complexa. E foi para isso que o senhor andou a estudar. Se não entende o que lhe digo, então é porque não aproveitou com as lições que lhe proporcionámos. O senhor vai querer assumir isso?
- Não sei. Aqui parece tudo muito pouco disposto a ser contrariado... E para falar verdade, não tenho a certeza de ter compreendido bem o que afinal sou.
- O Senhor representa uma condição e vai exercer pressão sobre o corpo ao qual se vai unir, no sentido de o condicionar à sua condição, isto é, a si. E você, responde a nós, que lhe damos as instruções que o senhor precisa para desempenhar esse papel.
- Está então a dizer-me que não posso escolher o que quero ser?
- O senhor vai levantar problemas? Isso não é aceitável. O senhor vai representar a nossa capacidade de sujeitar um indivíduo á pressão do seu meio. Portanto, deixe-se de provocações e preocupe-se mas é com o sítio onde vai ser colocado. O seu Hangar é o 3. Vá para lá, que lá explicam-lhe qual vai ser a sua Subsecção.
- Mas...eu...eu ainda queria fazer outra pergunta.
- Ponha-se mas é a andar que me está a atrasar a fila.
Sigo. Aparece logo um tipo vestido de verde a indicar-me o caminho. Não disse uma só palavra. Mas pelo menos, não empurra. O que é estranho, é que não tem qualquer cheiro! Será que eu tenho algum? E sabor? Serei comestível? Serei palpável? Se calhar até posso metamorfosear-me.
- Ai não posso?!
Estou a ver que falei alto demais...

4.
Agora estou num corredor comprido. Lá ao fundo vejo umas escadas que sobem. Fim do corredor... escadas... Coliseu?
- Olá!
Quem é este agora?
- Bem vindo ao Hangar 3. Sou um dos teus condutores.
- És o responsável por isto?
- Antes fosse, antes fosse, mas não. Estou aqui para te ajudar. Para te explicar, que o importante é o caminho e não a sua natureza. Tudo é relativo, logo, nada é importante em absoluto. Por isso, só tens que aceitar a tua posição na engrenagem. É a tua verdade. E é tão sincera quanto a de qualquer outro. Lembra-te que não interessa conhecer tudo. Conhece bem somente aquilo que deves conhecer.
Que cretinice. Mas é melhor ficar calado.
- Para fazeres bem o que te compete, tens de ter segurança. Tens de acreditar em ti e nos valores. E é mais fácil acreditares, quando os outros à tua volta acreditam no mesmo. Faz todo o sentido integrares-te. E depois só tens de desempenhar a tua função, melhor que ninguém!
Aqui no mundo dos homenzinhos, todos sabemos que a integração é difícil. Tu tens sorte, pois estás num nível que te dá direito a teres um condutor. Há muitos que não têm nada disso. Ficam entregues a si mesmos. Mas o teu caso é diferente. Tu és da Secção C. E essa é uma das melhores. Temos um historial de desempenho a manter. Lembra-te disso. Não vais querer deixar ninguém mal, pois não?
Mas que coisa a desta gente, sempre com ameaças veladas. Devia era ter fugido enquanto havia tempo. Ao invés disso estou à beira de outro lance de escadas. Só que este desce.
- Boa sorte!
Desço aqui, é? Assim parece. Catacumbas? Sou claustrofóbico. Quer dizer: não é que me falte o ar, mas pelo menos acho sempre que me devia faltar.
- Desce, desce!
Outro!
- Desce. Vou levar-te até à tua zona de embarque.
- E tu vais dizer-me o quê?
- Não te vou dizer o mesmo que o meu colega te disse, se é isso que queres saber. O outro é o teu condutor pessoal. Eu conduzo várias condições, não uma só.
Bom. Como se não chegasse o prato principal, ainda tenha de comer a sobremesa.
- Mas não ligues muito ao teu condutor. Não te deixeis impressionar. Só vais fazer o que já muitos antes de ti fizeram, e se eles conseguiram, não há razão para tu não o seres capaz.
Este parece mais simpático. Mas aqui, é sempre de desconfiar.

5.
Ora bolas! Não estou nada preparado para isto! Não posso voltar atrás. Mas ainda tenho milhares de perguntas! E muito mais dúvidas quanto ao querer fazer o que me estão a mandar fazer. Não quero apanhar e nenhum veículo. Mas que raio de merda é esta coisa do mundo dos homenzinhos!!!
Elevador parou. Abre-se a porta.
“Saem umas calças azuis para a terceira mesa do canto!”.
Merda. Mas porque raio não fugi eu enquanto era tempo?

A minha última criação

"Todos os dias, à mesma hora, repetia o ritual."

Todos os dias, à mesma hora, repetia o ritual. Sentava-se no banco, no mesmo banco, onde o vira pela última vez, esperando até a noite se pôr.

"Somos aquilo que são as nossas memórias", explicava ele à mulher, sempre que esta se queixava daquela esperança fútil. "Podem tirar-me tudo, menos aquilo que trago dentro de mim". Todos eram presas das errâncias do mundo. Só aquilo que cada um gerava dentro de si, estava livre de toda a maldade que o pudesse apagar.

Os amigos avisavam-no. A mulher continuava a queixar.se, Mas para ele, isso não era um problema. Continuava a acreditar, apesar de não entender. Aliás, principalmente por não entender. "A atenção é o corpo da alma". E o Homem não fora feito para se sentir seguro. Por isso ele esperava, com a calma de quem aceita todas as dúvidas interiores.

Dissessem o que dissessem, a verdade é que não podia sair dali. Não. E se ele voltasse? Nunca se perdoaria se faltasse a esse reencontro. Tornara-se guardião da solidão do outro, à medida que aquelas conversas se foram sucedendo, todos os dias, à mesmo hora. Aquela amizade tinha-se tornado mais importante que qualquer outra coisa. Viver naquela esperança, era pensar que o futuro poderia vir a fazer sentido. Aquilo fragilizava-o, diziam-lhe os amigos. Mas para ele era exactamente o contrário. Graças àquela esperança, passara a ter uma presença real, numa vida outrora vazia. E mesmo que essa presença fosse um vulto ausente, ele continuaria a guardar um lugar, naquele banco, impedindo quem quer que fosse de se sentar nele. Não fosse ele aparecer...

"Torturas-te!", reclamava a mulher. Ele não respondia. Ela jamais entenderia o que era viver deliberadamente de ferida aberta. Naquele banco estavam todas as vidas que nunca tinha vivido. Estava o pormenor do mundo, que aprendera a ler com admiração. Estavam as subtis diferenças que mudavam cada memória, sempre que a ela voltava. No seu íntimo, tinha consciência que esse mundo recordado era inalcançável. Mas nem por isso menos possível. E por isso ele, todos os dias, à mesma hora, repetia o ritual.

domingo, 21 de junho de 2009

"Cloud Gate", by Anish Kapoor



Andei a limpar o computador e descobri estas imagens.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Conversa de Café

- Tu nunca te abres!

Pudera. Quando o faço os meus desabafos são minimizados, uma coisa pouco importante, que é resultado das minhas inseguranças. Quais, ainda estou para saber, pois nem sequer as consigo expor, uma vez que ela nem me deixa terminar as frases.

- Ouve, como é que tu podes saber o que eu ia dizer, se nem me deixas acabar.
- Já percebi o que é que vais dizer.
- Estou a desabafar; não te estou a pedir lições de moral.
- Se me estás a contar, tenho direito a dar a minha opinião.

Claro que sim. Mas quando o desabafo passou a ser dela, já este direito não foi extensível a
mim.

- Não tens que estar sempre a analisar tudo. Estou só a falar.

Já tentei isso.

- Não dizes nada? Não tens opinião?

Ter, tenho. Mas isso só é útil se for a que ela quer ouvir.

- É isso que tu achas?
- Ouvindo o que tu disseste sim.
- Então não percebeste nada.
- Lá por não concordar contigo, não quer dizer que não tenha percebido.
- Tu agarras-te demasiado às palavras.
- As palavras forma tuas.
- Sim, mas não precisas de as levar tão a sério.

O que a bem ver, até é verdade. Há coisas que não merecem a importância que lhes damos. O difícil é saber quais.

- Nem ligas ao que eu te digo!
- Bom; primeiro dizes-me que não devo dar tanta importância ao que dizes. Agora queixas-te do contrário.
- Isso é porque tu não me dás atenção. Porque se desses percebias a diferença.
- Como é que é suposto eu perceber a diferença, se as regras mudam sem uma lógica traçável?
- Lá estás tu a desconversar.

Sendo que, na verdade, estava a tentar fazer exactamente o oposto. Mas era escusado tentar compreender.

- Tu és básico.

Pelo menos por uma hora, que na hora seguinte posso já ter passado a complicado.

- Afinal sou básico ou complicado?
- És básico numas coisas. O que complicas são os teus defeitos.

E depois acha estranho que eu me mantenha calado e não fale de mim.

- Não precisas ficar assim. Não se pode dizer nada!
- Dizes o que tu quiseres.
- Pronto, lá está tu.
- A fazer o quê?
- A concordar comigo.
- Pensava que era isso que querias.
- Não sejas condescendente comigo.
- Não estou a ser condescendente.
- Estás sim. Só dizes isso para me deixar satisfeita.
- Mas não é isso que esperas de mim? Que te deixe satisfeita?
- Hoje estás impossível.

Impossível, porque percebi a futilidade da discussão.

- Sabes, a mim parece-me que na verdade o conteúdo desta discussão pouco interessa. Tu na verdade queres é falar, pouco importando o que se está a dizer.
- Ai é isso que tu pensas?
- Estás sempre a mudar de opinião? Como é que podes estar à espera que eu saiba o que é importante para ti?
- Deixa-me muito triste ver que é assim que tu olhas para a nossa relação.

Senti-me manipulado. Felizmente aprendi a não perder o sono com isto. Foi necessário. Caso contrário teria morrido à muitos anos de exaustão.